Kely Nascimento dedica vida à doação e alerta sobre hepatite

Kely e Northon em cena, em 2007

Kely e Northon em cena, em 2007

Em dezembro de 2003, a vida da atriz Kely Nascimento começou a passar por uma significativa transformação. Seu marido, o ator Northon Nascimento, se submetia a uma cirurgia de aneurisma da artéria aorta quando o coração parou de bater. Apenas um transplante cardíaco poderia salvá-lo, e o ator passou quatro dias tendo o sangue bombeado artificialmente até o surgimento de um doador compatível. A morte de uma pessoa cuja família autorizou a doação dos órgãos, no Rio de Janeiro, representou uma nova vida para Northon.

“Quando o Northon acordou e foi informado do que aconteceu, passou a ter um sentimento de gratidão que o levou a abraçar a missão de levar às pessoas o tema da importância da doação de órgãos”, conta Kely.

Ela e Northon começaram então a trabalhar por esta causa, divulgando por meio do teatro a mensagem de que uma perda pode, ao mesmo tempo, significar uma nova chance para outra família. Começava a tomar corpo o Instituto Renascimento, destinado a levar esclarecimento sobre doações de órgãos por meio da arte.

“Apesar de tudo o que aconteceu, a vida que Deus deu ao Northon era sua maior alegria. E isso o inspirou a falar para as pessoas através da arte, a divulgar a mensagem de que, mesmo num momento de tanta dor, existe a possibilidade de gerar vidas”, diz a atriz. “O teatro inspira e toca o coração das pessoas com uma melodia muito especial.”

Em 2007, o casal estreou a peça “Adão e Eva – O Clássico”, cujo texto tratava de forma poética e até bem-humorada o tema da doação.

Infelizmente, porém, não houve muito tempo para Kely e Northon encenarem juntos.

HEPATITES
Naquele mesmo ano, Northon passou a sofrer as complicações de uma hepatite diagnosticada tardiamente e que já comprometera o funcionamento de seu fígado. O ator morreu em dezembro de 2007, aos 45 anos.

“Perdi meu marido não por causa do transplante de coração, mas por causa da hepatite. É uma doença silenciosa, que demora muito a ser percebida”, ressalta a atriz, fazendo coro à mensagem do Fundo PositHiVo, sobre a necessidade de um diagnóstico precoce e tratamento correto contra as hepatites virais. “O Northon faleceu porque a hepatite foi diagnosticada muito tarde. Claro que havia uma série de fatores, no caso dele o de ser um paciente transplantado, mas um diagnóstico com a doença menos avançada com certeza teria ajudado muito. Hoje, com as medicações revolucionárias que surgiram, o paciente pode ser tratado em muito menos tempo e sem sofrer com tantos efeitos colaterais”.

E a as hepatites virais dos tipos B e C são justamente as que provocam maior número de transplantes de fígado no Brasil. Segundo dados do Hospital de Transplantes de São Paulo, 65% dos pacientes que tiveram o fígado transplantado conviviam com as hepatites do tipo B ou C. “É muito importante o tema da prevenção e do diagnóstico precoce ser levado para todos os cantos do país, para cada cidade, cada povoado, para todas as pessoas entenderem a seriedade e gravidade, além das possibilidades de vida que surgiram com os novos tratamentos. Isso com certeza vai fazer diminuir o número de pacientes na fila de transplante de fígado”, afirma Kely Nascimento.

ATIVISMO
Após a morte de Northon, Kely passou a ser uma verdadeira porta-voz em defesa da doação de órgãos em todo o Brasil. E o Instituto Renascimento, do qual ela é presidente, aborda especialmente a necessidade de esclarecimento entre todos os familiares do doador, uma vez que são os parentes mais próximos os únicos que podem autorizar a doação dos órgãos.

“Mesmo que a pessoa deixe registrado em RG (como era a lei anterior) ou em qualquer outro documento, a doação só acontece com a assinatura da família”, explica a atriz. “E 46% das famílias abordadas para autorizarem a doação se negam assinar o procedimento. Muitas pessoas me perguntam se eu acho que essas pessoas são egoístas. Eu não acho. Eu acho que são desinformadas. E a falta de informação gera a negativa para a autorização da doação. Ou seja, precisamos, como em tudo, ensinar para poder colher resultados”.

Kely também defende que o tema seja tratado com mais ênfase nas escolas. “Esse assunto precisa ser levado para o ensino fundamental para que desde a infância se discuta e ensine o conceito da doação. É necessário um trabalho intenso de educação. Afinal, dá pra entender uma pessoa que nunca ouviu falar no assunto não aceite assinar a autorização para retirada dos órgãos no momento em que está lidando com a perda de um ente querido”.

E o Brasil tem evoluído neste quesito? Segundo Kely, a resposta ainda não carrega otimismo. “Não posso dizer que não tenha evoluído, mas com toda certeza não chegamos nem perto do que é possível chegarmos. Para ser realizado, o transplante exige várias situações: compatibilidade, equipe médica para retirada do órgão em tempo, hospital capacitado… Enfim, são muitas coisas. Mas, para haver a doação, as pessoas só precisam ser informadas, ensinadas… Elas precisam entender o que é a morte cerebral, desmistificar os medos que surgem, fazer o tema se aproximar mais da vida de todos. E isso, infelizmente, é uma coisa que não vejo acontecer.”

AÇÃO DO INSTITUTO
À frente do Instituto, Kely está remontando a peça que começou a encenar ao lado de Northon Nascimento, há quase dez anos, mas com atualizações no texto. “O Instituto Renascimento tem como princípio usar a arte em suas diversas formas para levar a informação às pessoas. O nosso próximo passo é a produção do espetáculo ‘UMA NOVA HISTÓRIA’, uma releitura da peça ‘ADÃO E EVA – O CLÁSSICO’, que estreou comigo e com o Northon alguns meses antes de seu falecimento. A peça fala sobre a importância da família antes, durante e depois do transplante”, explica, deixando claro que o tema é abordado de forma leve. “A personagem vai precisar de um transplante de fígado, mas a peça não é triste, não. Respeitando os valores deixados pelo Northon, é um texto divertido e emocionante. Falamos de vida, e vida em abundância”.

Antes de encerrar a entrevista, Kely faz uma homenagem ao companheiro. “O Northon era uma pessoa muito generosa. Mesmo antes de passar pelo transplante, a palavra DOAÇÃO já fazia parte de sua vida. Ele fazia campanhas para ajudar em tudo o que era chamado. Tirava a roupa do corpo para dar a alguém na rua que estivesse precisando. Ele era um homem de muitos sonhos e valores elevados.”

Para maiores informações sobre o Instituto Renascimento, visite o site aqui.

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