Em Roraima, levando prevenção às venezuelanas

Bruna, do 'De Bem Com a Vida', orientando venezuelanas na rodoviária

Bruna, do ‘De Bem Com a Vida’, orientando venezuelanas na rodoviária

Os primeiros sinais começaram há alguns anos. Era evidente que algo estava errado quando a população de Boa Vista, cidade planejada e capital do estado de Roraima, começou a perceber a presença crescente de cidadãos venezuelanos pedindo dinheiro nos semáforos da cidade. A crise no país vizinho, que faz fronteira ao Norte do estado, estava cada vez mais acirrada, e já não restava a milhares de homens, mulheres e crianças outra alternativa que não fosse migrar para a Colômbia e o Brasil.

No caso brasileiro, a porta de entrada para os cidadãos venezuelanos é Pacaraima, pequena cidade a cerca de 210 quilômetros de Boa Vista. De lá, milhares seguem para a capital de Roraima (boa parte a pé, desafiando a estrada com muitos trechos sem acostamento). Hoje são cerca de 40 mil venezuelanos em Boa Vista, mais do que 10% da população total da capital roraimense, que computa pouco mais de 332 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2017.

A psicóloga Bruna Alves desde cedo passou a se mobilizar para fazer a diferença junto a estes milhares de recém-chegados. Ela faz parte da instituição “De Bem Com a Vida”, uma ONG que busca assistir à população local no campo da saúde e dos direitos humanos. “Historicamente éramos nós, brasileiros, que costumávamos ir em peso para Santa Elena em busca de produtos com preços melhores”, recorda-se, citando a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén, a apenas 15 quilômetros de Pacaraima. “Venezuelano em Boa Vista a gente via pouco. Agora tudo mudou.”

Já que tudo mudou, Bruna e o “De Bem Com a Vida” criaram um projeto na área da saúde a fim de levar conhecimento sobre HIV/Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis para os imigrantes venezuelanos, especialmente as mulheres. Sem outras opções para buscar o próprio sustento ou de seus filhos, muitas mulheres que chegaram do país vizinho engrossaram as fileiras da prostituição em Boa Vista e estradas próximas. “Infelizmente percebemos um aumento grande na prostituição local. E com esse quadro veio também o aumento da violência contra a mulher, inclusive a violência sexual”, explica Bruna Alves.

O projeto organizado pelo “De Bem Com a Vida” foi batizado de “VenhaMulheres!”, e contou com apoio financeiro do Fundo PositHiVo, uma organização com sede em São Paulo que mobiliza recursos junto a empresas e sociedade civil para fortalecer o enfrentamento ao HIV/Aids. Com os recursos foram organizados encontros com mulheres venezuelanas em praças e na rodoviária de Boa Vista. Também houve ações em Pacaraima. As venezuelanas ouviram explicações sobre a prevenção sexual e o uso da camisinha, inclusive a feminina. “Trabalhamos muito a questão do ‘ser mulher’, do empoderamento e da capacidade de elas determinarem o uso do preservativo”, explica a psicóloga.

MEDO
Além do idioma, outro grande desafio encontrado para levar o projeto até as mulheres recém-chegadas da Venezuela foi o medo. Por estarem em situação ilegal no Brasil, muitas mulheres e famílias evitam se entregar a bate-papos. “Queríamos documentar as ações, mas havia dificuldade até em tirarmos fotos. A situação irregular faz com que todos fiquem retraídos, mas aos poucos conseguimos um maior envolvimento. Ao mesmo tempo são pessoas que estão com uma carência afetiva muito grande.”

Em um dos grupos trabalhados, a troca de confiança se tornou que foi possível inclusive realizar triagem e testagem de HIV/Aids entre mulheres e homens. Nenhum teste positivo foi detectado. Outro grande desafio foi trabalhar com mulheres warao, uma etnia indígena do Nordeste venezuelano que vem sendo dizimada pelo HIV. Os homens destas tribos não admitem o uso do preservativo masculino. Foi necessário então ensinar o uso da camisinha feminina para as warao. O resultado vem sendo satisfatório. ”A gente vem acompanhando relatos de que elas estão adotando a camisinha feminina, se protegendo e ganhando mais identidade na relação com os homens”, conta Bruna.

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PRECONCEITO E ESPERANÇA
A psicóloga relata que outra dificuldade para os imigrantes da Venezuela é lidar com sentimentos e comportamentos obscuros do ser-humano, entre eles o preconceito e uma certa xenofobia, presentes em muitos habitantes de Boa Vista. “Sim, existe um preconceito muito forte contra os venezuelanos. Muitas mulheres não conseguem emprego por este motivo, por serem taxadas de prostitutas, por exemplo. Basta ocorrer algum crime que logo culpam venezuelanos”, lamenta Bruna.

Em fevereiro, o presidente Michel Temer esteve em Boa Vista e assinou um decreto reconhecendo a situação de “vulnerabilidade social” de Roraima frente a onda migratória de cidadãos bolivianos. Dentre as medidas anunciadas, está a distribuição de refugiados venezuelanos para outros estados, como Amazonas e São Paulo. Já o poder estadual e municipal vem realocando os imigrantes que vêm lotando praças e a rodoviária de Boa Vista.

Para Bruna Alves e pessoas envolvidas nos cuidados com esta população, trata-se de uma maquiagem. “Tirar dos olhares do público e alocar em ginásios e demais locais sem infraestrutura é apenas uma maquiagem, uma medida quase higienista”.

Gente de bem, como ela, felizmente também está a postos, aos milhares, para contra-atacar. “Temos visto muita solidariedade. Muita distribuição de alimentos, de roupas, uma preocupação sincera em dar dignidade a essas pessoas. Tudo que elas querem é trabalhar, juntar dinheiro e um dia retornar ao país de origem. Eles só saíram de lá por uma questão de sobrevivência. Todos dizem que o maior desejo é voltar à Venezuela um dia.”

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